Archive for Blackbird em Londres

My Valentine

O termo “pop” já há muitos anos passou a ser utilizado de forma pejorativa para (des)qualificar trabalhos de artistas, dando-lhes uma conotação de obras menores sob o ponto de vista artístico, apenas voltadas para o sucesso imediato. Paul McCartney foi e (em certa medida) continua sendo um dos principais alvos dos críticos nesse sentido.
Mas está mais que na hora desses formadores de opinião passarem a encarar os trabalhos de Paul com uma visão menos tacanha e míope.

Para muitos Paul é “o mais pop dos ex-Beatles”, não importa o que ele faça. McCartney pode compor um Liverpool Oratorio, pode compor música para balé (Ocean’s Kingdom); pode fazer experiências com música eletrônica (Firemen), pode gravar um álbum de standards americanos em sua maioria pouco conhecidos, como o caso de Kisses on the Bottom, e lá vem o crítico de plantão anunciar o mais “pop” dos Beatles… bla bla bla…
Muito mais importante que discutir o fato de Paul ser ou não o mais pop, é constatar que o músico tem provado ao longo de toda a sua carreira um intenso conhecimento e domínio de diversas formas de manifestação musical.
Para Macca, não existem fronteiras de qualquer natureza entre as formas de expressão musical. Música boa é música boa, seja ela rock, folk, R&B, reggae, balada, jazz, blues, etc…


Característica necessária a um músico Pop é a de encontrar o seu “nicho” e se estabelecer em sua zona de conforto ao decidir os passos a serem dados. McCartney está longe de ser um músico estabelecido em alguma zona de conforto, Kisses on the Bottom é mais uma demonstração disto. Repertório não desconhecido, mas pouco visitado por ele, além de grande perspectiva de comparações com monstros sagrados como Sinatra, Dean Martin, Julie London, Nat King Cole e tantos outros que transformaram essas canções em standards. Trabalhar com músicos profissionais de jazz, aqueles que “conhecem” cada nota que devem tocar. Limitar-se a ser apenas um “crooner”, ou seja, cantar sem estar “protegido” por qualquer instrumento.
Esses foram alguns dos desafios que Paul enfrentou ao decidir executar este álbum. O resultado prático? Excelente. O tratamento dado a cada canção é intimista, sóbrio e extremamente elegante.

O grupo de músicos que acompanha Paul é excepcional e inclui, entre outros, Diana Krall (ao piano, em todas as faixas, além dos arranjos) e John Pizzarelli. Conta ainda com algumas participações especiais, particularmente nas canções compostas por Paul: Eric Clapton, na faixa mais importante do CD, “My Valentine”, em um delicado e lindo solo de violão (Eric também empresta seu talento na gravação de “Get Yourself Another Fool”), e Stevie Wonder, com uma maravilhosa gaita em “Only Our Hearts”. O fato de Diana ser casada com Elvis Costello certamente facilitou o desenvolvimento dos trabalhos de escolha de repertório, arranjos e produção do disco.


No mais, a participação de Eric Clapton encerra de uma vez por todas os rumores (sem qualquer fundamento) de que Clapton e McCartney não se suportam!!

Na impecável performance ao vivo no Capitol Studios (iTunes em 9 de fevereiro), Joe Walsh (do grupo Eagles e atual cunhado de Ringo Starr) substitui Clapton e Abe Laboriel Jr. (baterista da atual banda de Paul e filho do baixista Abraham Laboriel) faz um preciso vocal de apoio em algumas canções.
Certamente Kisses on the Bottom é mais um trabalho a comprovar que Paul é o mais pop dos Beatles. Paul já esteve em 1º lugar nas paradas de sucesso de rock diversas vezes; de clássicos, algumas vezes.  Provavelmente, em breve também estará no topo das paradas dos discos de jazz.
So… Paul McCartney é seguramente o mais pop dos Beatles. Mas porque aquilo que ele faz se torna popular. Assim como os Beatles foram o grupo mais pop da história da música.

P.S. Bendita Nancy Shevell, por deixar o Macca tão inspirado! Abaixo, cantando “My Valentine” na cerimônia de entrega do Grammy 2012.

Um pouco mais sobre “A Hard Day’s Night”

A estação de trem de Marylebone, que aparece bastante no filme A Hard Day’s Night, fica na Marylebone Road.

Detalhe do filme "A Hard Day's Night"

Ao lado da estação visitamos a Boston Place, uma rua de pouco movimento, estreita… Na abertura de A Hard Day’s Night os Beatles aparecem correndo por essa rua, para em seguida entrar na estação de trem. Lembra-se? Aparentemente o lugar continua muito semelhante ao que era nos anos 60, porque as construções são bem antigas.

Em um dos lugares mais movimentados de Londres, o Piccadilly Circus, ficava o London Pavilion Theatre, local em que, em 6 de julho de 1964, ocorreu a première mundial do filme A Hard Day’s Night (e também de Help!, em 29/7/1965, e de Yellow Submarine, em 17/7/1968).

O espaço deixou de ser usado como teatro em 1986. Convertido em um tipo de shopping, apenas a fachada e a estrutura do prédio foram preservadas.

Em nossa ida a Londres no final de 1996, visitamos um museu de cera instalado no antigo Pavilion, o Rock Circus, um “braço” do Madame Tussoud’s inteiramente dedicado aos famosos do rock e pop. Esse museu fechou em 2001.

Atualmente, o local abriga o Ripley’s believe it or not!, uma atração dedicada a coisas estranhas, inacreditáveis… ainda não visitamos. Como pode ser visto na fotografia, a aglomeração na região continua grande… Só turistas, nada mais a ver com os Beatles!

Charlotte Mews

Seguindo uma sugestão do nosso amigo Johnny, que um tempo atrás comentou a respeito da sequência de perseguição, visitamos a Charlotte Mews, uma viela que une a Tottenham Street à Howland Street, localizada próximo à Charlotte Street e à Telecom Tower (torre de telecomunicações).

No final do filme A Hard Day’s Night, os Beatles vêm correndo por essa viela e, em seguida, entram no Teatro Scala, que já não existe mais, para a última apresentação.

A viela continua muito semelhante.  O prédio ao fundo parece que passou por uma reforma que modificou o formato das janelas. E o edifício marrom, à esquerda, também não parece ser o mesmo, mas o restante…

No lugar do teatro – demolido em 1969, depois de um incêndio – foi construído um prédio, denominado Scala House. Foi nesse teatro que foram filmadas as cenas de palco que aparecem no filme.

Na Tottenham Street, quase em frente à Charlotte Mews, ficava a entrada do palco (stage door) do Scala, por onde os Beatles entram. A entrada para o público localizava-se na Charlotte Street. É realmente uma pena não existir mais…

Antigo Scala Theatre

O interessante em relação a essas cenas de perseguição no filme é que os outros trechos do percurso, como já mostramos, foram filmados em Notting Hill (região oeste de Londres), e essa parte final localiza-se numa área central (Camden) chamada Theatreland, devido ao grande número de teatros. No filme, tudo parece muito próximo.

Trident Studios

Em 1968, no Reino Unido, a mesa de gravação em 8 canais ainda era novidade, e os estúdios Trident eram um dos poucos que possuíam uma Ampex 8 track machine. Consta que os estúdios de Abbey Road já haviam adquirido um equipamento 3M, mas ainda não havia sido instalado!!
Construídos em 1967 pelo instrumentista Norman Sheffield e seu irmão Barry, e localizados no nº 17 da St Annes Court, uma estreita passagem para pedestres que liga a Dean Street à Wardour Street, no Soho, os Trident Studios logo ficaram famosos, principalmente por terem sido utilizados pelos Beatles. A gravação mais famosa dessa época ocorreu entre 31 de julho e 6 de agosto de 1968, e a canção foi nada menos que Hey Jude.


O Trident foi muito utilizado também pela Apple, sobretudo antes de ficarem prontos os estúdios da Savile Row. Nesses mesmos dias, por exemplo, além de Hey Jude, estavam sendo gravadas faixas dos álbuns de Jack Lomax, produzido por George Harrison; de Mary Hopkins, produzida por Paul, e de James Taylor, com a supervisão de Paul McCartney.

Em 1968, várias canções do Álbum Branco foram gravadas nos Trident Studios: Dear Prudence (de 28 a 30/08); Honey Pie, Savoy Truffle e Martha My Dear (de 1 a 5/10). Do álbum Abbey Road, gravaram ali a canção I Want You (She’s So Heavy), entre 22 e 24 de fevereiro de 1969.

Os Trident Studios existiram até dezembro de 1981, quando foram vendidos e passaram a se chamar Trident Sound Studios Ltd. O rol de artistas importantes que gravaram nos estúdios originais é bem amplo: Queen, Lou Reed, Elton John, T Rex, David Bowe, Genesis, Nilsson, entre muitos outros. Sem contar que no Trident foram realizadas algumas sessões de gravação (My Sweet Lord) e a mixagem de All Things Must Pass, de George Harrison. De Ringo, o sucesso It Don’t Come Easy… Cold Turkey da Plastic Ono Band…

John chegando no Trident, para gravar "Dear Prudence"

John chegando no Trident, para gravar "Dear Prudence"

Quando estivemos lá, pudemos observar que os tempos de glória não foram esquecidos. É possível visitar o estúdio (que atualmente é bem diferente do original, e já não ocupa todos os andares do prédio, como no passado), comprar uma camiseta promocional da empresa…

Well, no thanks… Apenas tiramos fotos da fachada… as quais estamos postando agora para vocês.

As cenas de perseguição do filme “A Hard Day’s Night”

Este post fala de alguns lugares que já não existem mais.
E por mais maluco que pareça, tivemos que ir duas vezes a esses locais antes de escrever… para ter certeza de não dizer bobagem.
Você certamente se lembra das cenas de perseguição em A Hard Day’s Night nas quais os Beatles entram em uma delegacia para buscar o Ringo, depois saem correndo, com um bando de policiais correndo atrás deles, entram em uma rua sem saída, param e, em seguida, voltam correndo….
A foto de uma das cenas, com os Beatles correndo, voltando do beco sem saída, foi capa do compacto This Boy, no Brasil.

Pois é, amigos… sinto informar, mas esse beco não existe mais!
Na primeira ida a Notting Hill para ver esse lugar nós ainda não sabíamos disso… e ficamos procurando, pois a rua não consta mais no mapa da cidade, e fotografando todo cul-de-sac que encontramos na região.
Insatisfeitos, depois de muita pesquisa na internet, levantando o histórico da região, voltamos lá para fotografar… adivinhe! … (sorrow) o estacionamento em que se transformou a Heathfield Street.


Conforme apuramos, o que aconteceu foi o seguinte: a Heathfield Street de Notting Hill (há outras na cidade) era uma rua sem saída ou cul-de-sac (os britânicos adotam o nome francês), travessa da Portland Road. Ela servia de entrada para os depósitos das fábricas de cerâmica e tijolos que antigamente existiam na Walmer Road, a qual é uma rua paralela. Demolidas as fábricas e seus depósitos para a construção de pequenos prédios residenciais, a Heathfield Street foi incorporada e passou a constituir a área de lazer e o estacionamento dos prédios.  Não levaram em consideração o inestimável valor histórico do lugar para os beatlemaníacos!!!

Observe que o prédio à direita parece ser o mesmo que aparece de relance no filme.


Juntinho dali fica a Clarendon Road, a rua da delegacia de polícia… que na verdade era uma escola, a St John’s Secondary School, a qual foi demolida ainda nos anos 60. No mesmo lugar (nº 83) foi construído um prédio residencial que guarda uma certa semelhança com o original.

Note que o edifício ao lado, entretanto, ainda é o mesmo. Mesma disposição das janelas, e uma passagem lateral…

Na Portland Road fotografamos também o ex-pub Portland Arms (agora uma empresa denominada Cowshed), onde, no dia 16/4/1964,  os Beatles gravaram algumas cenas de A Hard Day’s Night que não entraram no filme.


Embora essa região tenha perdido o interesse para os fãs dos Beatles, o bairro em si é muito agradável. Há muitas lojinhas charmosas, casas bonitas… e parques… os ingleses são loucos por parques. Na Walmer Road fotografamos um antigo forno de tijolos, um dos únicos sobreviventes na cidade, espremido entre prédios de construção mais recente.


Mas alguma coisa sobrou da sequência de perseguição de A Hard Day’s Night: a parte final. Só que está localizada bem distante dali, na região central de Londres. Em breve postamos.

À esquerda, Hippodrome Mews (um outro cul-de-sac); à direita (portão), início da antiga Heathfield Street (o beco do filme); e ao fundo, a Walmer Road (entrada do Avondale Park)

Kisses on the bottom

Enquanto aguardamos o lançamento do novo CD do Paul, resolvemos mostrar aqui as mesmas canções gravadas para o disco nas versões originais.
Quando Paul participou em um programa de TV em homenagem a Frank Loesser ele contou que era um hábito de sua família sentarem-se todos em uma sala (tios, primos, irmãos…) particularmente nas reuniões de fim de ano, para cantarem juntos as canções que eram repertório dos mais velhos.
Nesse show Macca canta “On A Slow Boat To China”. Ele não gravou esta para o novo disco, mas incluiu outras duas canções de Loesser.
A escolha das músicas para o álbum Kisses on the bottom está baseada nessas memórias que Paul cultiva desde a infância.
Embora a grande maioria das canções tenha sido gravada por vários cantores e cantoras, procurei selecionar as gravações que mais parecem ser aquelas ouvidas pelos pais e tios de Macca, ou seja, as primeiras a serem executadas em rádio nos anos 30 e 40. (Clique nos links abaixo dos títulos das faixas para ouvir.)

As faixas:

I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter (Fred E. Ahlert / Joe Young)

Im Gonna Sit Right Down And Write Myself A Letter – Boswell Sisters

Composta em 1935 e, talvez, ao lado de Bye Bye Blackbird e It’s Only A Paper Moon, sejam as mais conhecidas canções do disco.
É dela inclusive que sai título do CD:

I’m gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you

I’m gonna write words oh so sweet
They’re gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I’ll be glad I got ‘em

I’m gonna smile and say
I hope you’re feeling better
I’ll close with love the way you do
I’m gonna sit right down and write myself a letter
And I’m gonna make believe it came from you

I’m gonna write words oh so sweet
They’re gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I’ll be glad I got ‘em

I’m gonna sit right down and write myself a letter
And I’m make believe it came from you
Oh yeah
I’m gonna make believe it came from you

Já foi regravada por muita gente boa a partir dos anos 50: Frank Sinatra, Dean Martin, Nat King Cole, etc…e, mais recentemente, por Madeleine Peyroux em uma deliciosa versão em seu primeiro disco.
Fats Waller fez a primeira gravação, apenas ao piano. As Boswell Sisters gravaram com a letra completa, inclusive os primeiros versos que anunciam o porquê da decisão do cantor de escrever uma carta para si mesmo!

Home [When Shadows Fall] (Peter Van Steeden / Jeff Clarkson / Harry Clarkson)

Home (When Shadows Fall) – Louis Armstrong & His Orchestra

Primeiramente gravada por Rudy Valle & his Connecticut Yankees, em janeiro de 1932.
Louis Armstrong a gravou em seguida, ainda em 1932, e mais tarde a regravou no início dos anos 50.

It’s Only a Paper Moon (Harold Arlen / E. Y. Harburg / Billy Rose)

Its Only A Paper Moon – Nat King Cole

Nat King Cole a gravou entre 1944 e 1945 e depois a regravou anos mais tarde.
Essa canção é uma das mais regravadas entre as escolhidas por Paul. Antigas ou mais recentes, existem dezenas de interpretações. Uma interpretação de Harry Nilsson aparece nas faixas extras da reedição de 1988 de seu LP A Little Touch Of Schmilsson In The Night – álbum só de “Standards” lançado originalmente em 1973.

More I Cannot Wish You (Frank Loesser)

More I Cannot Wish You – Mabel Mercer

Composta em 1950 para o musical da Broadway “Guys and Dolls”.
Esta é certamente uma das mais obscuras entre as canções escolhidas por Paul; não existem muitas regravações dela. Frank Sinatra a cantou, junto com sua filha Nancy, Dean Martin e sua filha Gail, no Dean Martin Christmas Show de 1967.

The Glory of Love (Billy Hill)

The Glory Of Love – Benny Goodman with Helen Ward

Esta é a canção mais famosa de Billy Hill. Benny Goodman, com vocal de Helen Ward, a lançou em 1936, e ela foi gravada por vários cantores a partir dos anos 50, incluindo Peggy Lee e Dean Martin.

We Three (My Echo, My Shadow and Me) (Sammy Mysels / Dick Robertson / Nelson Cogane)

We Three (My Echo My Shadow And Me) – Frank Sinatra

Realizada por Sinatra, entre 1940 e 1942, acompanhado por Tommy Dorsey e sua Orquestra, esta gravação só esteve disponível em discos de 78 rpm até os anos 80, quando então todas as sessões de Sinatra com Tommy Dorsey foram compiladas e reeditadas em vinil e CD.

Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive (Harold Arlen /Johnny Mercer)

Ac-Cent-Tchu-Ate The Positive – Andrews Sisters & Bing Crosby

Composta em 1944, esta canção foi sucesso em 1946 com Bing Crosby e também com as Andrew Sisters.
A letra mostra que dar mais valor às boas coisas (ser otimista) pode ser um dos segredos para a felicidade. Acho que Paul se identifica muito com a mensagem dela!!

Always (Irving Berlin)

Always – Deanna Durbin

Irving Berlin escreveu esta música como um presente de casamento para sua esposa, em 1925.
Macca gosta dessas homenagens! My Valentine foi escrita para a Nancy, não foi?
Gravações de sucesso ocorreram a partir de 1942, quando ela foi utilizada em alguns filmes.
Harry Nilsson também a gravou para seu LP A Little Touch Of Schmilsson In The Night, de 1973. Esta que coloco aqui, de Deanna Durbin, é de 1944 e do filme “Christmas Holiday”, com Gene Kelly.

My Very Good Friend The Milkman (Harold Spina / Johnny Burke)

My Very Good Friend The Milkman – Fats Waller

Composta em 1935 e lançada originalmente por Fats Waller.

Bye Bye Blackbird (Ray Henderson / Mort Dixon)

Bye Bye Blackbird – Gene Austin

Composta em 1926 e originalmente gravada por Gene Austin, esta canção tem dezenas de diferentes interpretações e arranjos, inclusive com sensíveis adaptações na letra. Paul optou por um arranjo mais lento (como o da Julie London) ao contrário de Ringo, em seu álbum Sentimental Journey de 1970, que gravou um arranjo bem acelerado (com muito banjo), escrito por Maurice Gibb (dos Bee Gees) então muito amigo de Ringo.
Muito popular também para as gerações mais novas, ela teve interpretações de Joe Cocker, Trini Lopez, Ricky Lee Jones, entre outros.

Get Yourself Another Fool (Haywood Henry / Tucker)

Get Yourself Another Fool – Charles Brown

Lançada originalmente por Charles Brown, no início dos anos 50, esta canção teve também grande repercussão quando regravada por Sam Cooke.

The Inch Worm (Frank Loesser)

The Inchworm – Danny Kaye

Composta em 1952, esta canção foi originalmente gravada por Danny Kaye, para o filme “Hans Christian Andersen”.
Mary Hopkin a gravou, com produção de Paul McCartney, para o seu primeiro LP lançado pela Apple, em 1969.

(I’d Like to Get You on a) On A Slow Boat To China (Frank Loesser)

On a Slow Boat to China – Kay Kyser

Esta canção foi composta em 1947 e gravada inicialmente por Kay Kyser. Mais tarde foi regravada por diversos outros cantores.
Embora não esteja no novo disco, incluímos aqui a gravação original de Kay Kyser, pois Paul a interpretou ao vivo em 2009, em um programa especial de homenagem a Frank Loesser.

Em um lugar chamado Notting Hill

Muito antes de ficar conhecido mundialmente, com o filme de Julia Roberts e Hugh Grant, o bairro de Notting Hill já aparecia, anonimamente, nos filmes ingleses, como em Alfie, com Michael Kane (1966) e em A Hard Day’s Night, dos Beatles.
Perto de Portobelo Road – um ponto turístico de Londres em virtude da feira de rua que acontece aos sábados e também por abrigar inúmeras lojas de antiguidades – fica a Lancaster Road, cenário de A Hard Day’s Night.
As cenas são aquelas em que Ringo abandona o teatro, com uma máquina fotográfica, e anda sozinho pelas ruas. A sequência começa na esquina da St. Lukes Road com a Lancaster Road.

Primeiramente Ringo tira fotografia de umas garrafas de leite sobre um muro, depois é reconhecido por umas garotas e tem que correr. Na esquina (nº 20) ele entra em um tipo de brechó e arruma um disfarce, para em seguida seguir tranquilo pela All Saints Road, depois de abordar uma garota e ver que ela não o reconhece.
Como já antecipamos aqui, um sábado desses fomos conferir o local.

A rua está bastante parecida com o que era. As construções são as mesmas, aliás, as casas aqui são reformadas… raramente demolidas. Algumas alterações na pintura dos muros e no formato das grades junto à rua, mas observamos que as grades que guarnecem as escadas ainda são as mesmas.


O comércio da esquina está bem diferente, enobreceu.

O brechó agora é uma loja de cortinas, denominada Prêt a Vivre. Comparando as imagens da All Saints Road, vemos que, em 1964, as casas não tinham acesso direto da rua para o basement (subsolo), e isso agora é uma constante. No mais, quase tudo igual.

All Saints Road

O bairro de Notting Hill é muito charmoso, vale a pena ser visitado. Aproveitamos o tempo restante para um passeio pela Portobelo, olhar umas lojinhas… Em outras épocas havia muito mais lojas de discos na região. Agora são em menor número, e extremamente caras, devido ao grande número de turistas que tomam conta do lugar, principalmente aos sábados. Um LP dos Beatles chega a custar 100 libras. Em  Berwick Street, travessa da Oxford Street, os preços são bem mais convidativos.

Não muito longe dali, também em Notting Hill, foram gravadas outras cenas de A Hard Day’s Night, um assunto para futuro post.

James McCartney ao vivo

Ontem fomos assistir ao show de James McCartney no Barfly, em Camden Town.
Barfly é um pub bem charmoso, que possui no andar de cima uma sala especial, com um palco para pequenos shows. Calculo que, bem acomodados (todos de pé), o salão pode receber até umas 80 pessoas. O serviço de bar funcionando, possibilitou tomarmos nosso pint enquanto aguardávamos o início da apresentação. E tivemos que esperar bastante… A abertura da sala de shows estava programada para as 19h mas o show de James só começou às 22h.

Após uma curta apresentação de Ben Goddard, uma banda iniciante (com boas canções, por sinal…), entram James McCartney e seu grupo.

Ben Goddard e sua banda

James tem músicos de apoio bastante bons, particularmente o baterista. As versões ao vivo de suas músicas são carregadas de um peso bem maior do que as gravações oficialmente lançadas. Talvez ele queira se distanciar das inevitáveis comparações com o pai, tornando sua performance bem mais heavy.

Em alguns instantes, não dá para negar que nele está presente o sangue do velho Macca. Na ótima canção “I only want to be alone” é difícil imaginar que o refrão não tenha a contribuição do pai. Afinal, como Maurício Kubrusly muitos anos atrás descreveu, Paul faz canções “esparadrapo”: você ouve e ela “gruda” imediatamente. O refrão dessa música tem essa mesma característica.

James se encaminha para também ser um multi-instrumentista – passeia por guitarra, violão e teclado com bastante intimidade.

Falta ainda a James McCartney desenvoltura no palco. Muito tímido e contido, ele no máximo anuncia o título das canções. Nada de sorrisos ou qualquer tipo de interação com a plateia. Nem os nomes dos músicos que o acompanham (e muito bem) são anunciados.

Para dar suporte a sua voz, ainda insegura, a banda poderia proporcionar um apoio de backing vocal, especialmente nas canções mais pesadas.

Mas deve ser muito difícil ser filho de um dos maiores gênios da música de nossos tempos.  James está pagando esse preço, mas acredito que trilhando um caminho correto e seguro. Pequenas apresentações, low profile total.

Um fato, porém, poderia colocar a perder o foco na performance da banda.

Mal iniciado o show entram na platéia Paul, Stella e Mary McCartney, juntos com Rusty Anderson da atual banda de Paul. Muito animados – sobretudo Paul e Stella – logo se fizeram notar, com os “huhus” bem típicos de Paul.

Não há como evitar desviar o olhar do palco em uma situação dessas, especialmente quando estão a menos de dois metros de você…

Huhu!!!!

Assistir ao show de James já seria um prazer enorme. Tendo ao meu lado o velho Macca e suas filhas torna a experiência muito mais que memorável.

Apesar de Stella tomar uma atitude de proteção ao pai, tentando evitar as fotos, consegui algumas para documentar esse momento.

Autografando nosso CD

Macca no O2

Durante meus anos de trabalho dentro de empresas por muitas vezes brinquei com os colegas que o melhor dia da semana era a segunda-feira, contrariando as caras feias normais desses dias. Afinal, a segunda-feira é o dia da semana mais longe da próxima segunda-feira… Os londrinos tiveram nesta segunda-feira uma outra importante razão para concordar comigo: Paul McCartney no O2!


E o velho Macca fez com incrível competência o seu papel.
Show marcado para as 20:00h. Tomamos o trem por volta das 18:00 e duas conexões depois estávamos já no O2, às 18:30h.
Depois de um pequeno lanche com nosso filho Daniel, sem qualquer correria ou afobamento – dentro do complexo que é o O2 há dezenas de restaurantes – fomos para nossos lugares na Arena. Ótimos, bem de frente para o palco.
Enquanto aguardávamos, os telões mostravam uma montagem muito criativa de fotos, desenhos e vídeos sobre a carreira de Paul, tudo com uma trilha sonora especial também de trabalho dele.

Tempo suficiente também para admirar o espaço da Arena e a organização primorosa.

Com pequeno atraso, aproximadamente às 20:20h, entram Paul e sua banda e começa o show: Hello Goodbye.
Quando assistimos à apresentação de Crosby e Nash, comentei a respeito do set list. Neste tipo de show (lugar amplo e para plateias grandes) é inevitável que Paul fixe seus clássicos como repertório indispensável (Let it be, Yesterday, Blackbird, Hey Jude, Lond and Winding Road, Band on the run, Jet, Eleanor Rigby, Live and let die…).

Mas ele incluiu algumas novidades nesta temporada de shows (Junior’s farm, The night before, Come and get it, The Word – All you need is love) e recolocou outras não tão frequentes (I will, Meddley final do Abbey Road), de tal forma que o show ficou maravilhosamente atraente, mesmo para quem já viu o Macca por várias vezes.
A banda é ótima e os anos todos que tem de convívio no palco garantem perfeita unidade. Não são uma banda cover dos Beatles (ou Wings). Paul claramente não deseja isso. Muitas liberdades são tomadas pela banda na execução das canções. Os solos (inclusive os executados pelo próprio Paul), algumas passagens dos vocais e bateria não são os mesmos, propiciando pequenas visões de como Paul encara sua música e de como ele é capaz ainda de se entregar a ela como criador. Paperback writer, I’ve got a feeling, The Word mostram pequenas explorações de formas de interpretação alternativas.

Quanto ao roteiro do show, Paul realmente tem um script definido. Talvez esse seja um dos pontos que mostram seu incrível profissionalismo e uma das razões que conduzem a um show perfeito. A fala de introdução da homenagem a George, a explicação sobre Blackbird, a regência do coro do público no final de Hey Jude poderiam até ser pré-gravadas. Está tudo incorporado a um tipo de charme que tem a sua apresentação. Se ele resolvesse mudar algo relativo a isso tudo, logo viriam comentários do tipo (como diria o saudoso humorista José Vasconcelos): – Ué, ele não fez aquilo! – e então ele continua fazendo, e agradando.
E ainda vou descobrir a razão de, durante o tributo ao George (Something), dezenas de fotos de George serem mostradas nos telões, enquanto no tributo a John (Here today) apenas o planeta Terra permanecer girando no fundo do palco!
Ainda tivemos uma surpresa. Antes de iniciar a apresentação de Get Back, Paul chama um convidado especial: Ron Wood dos Rolling Stones. Ron toca com a banda e participa dos agradecimentos junto com o grupo, ao final do primeiro bis.


Se alguém me pedisse para definir em poucas palavras ou poucos minutos as razões pelas quais eu gosto tanto de Paul McCartney, talvez isto pudesse parecer difícil. Mas eu lhe pediria apenas para ouvir o meddley final do Abbey Road: Golden Slumbers – Carry that weight – The end. Em apenas 5:18 minutos temos, na minha opinião, o melhor resumo da genialidade e versatilidade musical de McCartney. Terno e cândido, grande vocalista, multi-instrumentista, agressivo roqueiro, excepcional arranjador e ótimo letrista:

IN THE END THE LOVE YOU TAKE

IS EQUAL TO THE LOVE YOU MAKE

Thanks Macca

Friar Park

Sábado, dia 25 de novembro, tivemos o enorme prazer de visitar a cidade em que George Harrison morou por mais de 30 anos: Henley-on-Thames.

Placa localizada ao lado de Friar Park

O trem para lá sai da estação de Paddington, e é preciso fazer uma conexão em Twyford. A viagem dura cerca de uma hora. A cidade, às margens do rio Tâmisa, fica a 55 km a oeste de Londres, em Oxfordshire. Embora pequena, é bastante movimentada, com muitas lojas e restaurantes. Tem vários prédios de importância histórica, porque está localizada em um antigo caminho que remonta ao século XII.

Rua central de Henley-on-Thames

Henley-on-Thames é bastante conhecida também por sediar anualmente a competição de remo denominada Henley Royal Regatta.

Gravel Hill, rua que, saindo do centro, leva a Friar Park

Mas uma propriedade, especificamente, atrai muitos turistas como nós para essa cidade: Friar Park, a incrível mansão de George Harrison. Construída aproximadamente em 1875, em estilo neo-gótico, sua entrada fica a cerca de 500 metros do ponto mais central de Henley-on-Thames, na Gravel Hill.

O antigo proprietário da mansão, Sir Frank Crisp, foi homenageado por George na canção Ballad of Sir Frankie Crisp (Let it roll), do álbum All Things Must Pass.

Sabíamos que só conseguiríamos ver a portaria da casa, porque a mansão efetivamente está completamente encoberta pelos imensos jardins que a circundam… mas já valeu a pena. Uma sensação de paz e uma imensa alegria nos foi transmitida por aquele lugar.

Emoção, ao pensar em George cuidando daqueles jardins… compondo e gravando suas canções nos estúdios localizados logo ali… identificados nos discos pela sigla F.P.S.H.O.T. (Friar Park Studio, Henley-on-Thames).


Depois da sessão de fotos na entrada, subimos a Gravel Hill, circundando a propriedade, e alguns metros adiante encontramos uma entrada secundária, a qual também foi fotografada. Nenhum funcionário ou segurança, ninguém por ali… Apenas um casal visitando o local, certamente pelos mesmos motivos.

Prédio na entrada secundária


Passamos um dia muito gostoso em Henley-on-Thames. Um momento único para nós, um verdadeiro “remembrance day” do legado do magnífico artista que foi George Harrison.